O desaparecimento do Matilde: uma tragédia que marcou a ilha Brava há 83 anos 2026-08-27

Em Agosto de 1943, há 83 anos, o navio Matilde desaparecia numa das mais marcantes tragédias marítimas da história da ilha Brava. A embarcação, com 53 homens a bordo, partiu do Porto de Fajã d’Água, na ilha Brava, com destino aos Estados Unidos da América, mas nunca chegou ao seu destino.

Construído em São Vicente e comandado por Nhô Henrique de Lola (Henrique Duarte Rosa), natural de Lém, em Nova Sintra, o veleiro realizou a sua última viagem a 27 de agosto de 1943, em plena II Guerra Mundial. Durante a travessia do Atlântico, desapareceu após ser surpreendido por condições meteorológicas adversas associadas a um ciclone.

A viagem ocorreu num período particularmente difícil para Cabo Verde, marcado pelos efeitos devastadores da II Guerra Mundial, que agravaram as condições de vida da população e provocaram enormes dificuldades às famílias cabo-verdianas. Na altura, encontravam-se na ilha Brava vários homens naturalizados norte-americanos que, devido ao conflito internacional e à falta de ligações marítimas, não conseguiam viajar para os Estados Unidos. Para muitos, o Matilde representava uma oportunidade de partida, de reencontro com familiares e de procura de melhores condições de vida.

Segundo os relatos disponíveis, a embarcação não reunia as condições adequadas para uma viagem desta natureza e seguia excessivamente carregada. Para além dos passageiros, levava a bordo uma carga diversificada, que incluía água e mantimentos, colchões, cabras, um novilho, lenha, um pilão e um moinho. Esta carga tinha sido previamente transportada da Furna para Fajã d’Água através dos botes Elisabeth e Santo Antão.

De acordo com Artur Vieira, o veleiro foi construído em São Vicente e pertenceu inicialmente à Casa Carvalho, que lhe atribuiu o nome.  Mais tarde, passou para Manito Bento, comerciante da Praia, e, posteriormente, para os irmãos Daniel e Abel, filhos do Sr. Ramos, comerciante de Cova Rodela, na ilha Brava.

Entre os ocupantes do veleiro encontravam-se maioritariamente naturais da Brava, mas também passageiros provenientes de outras ilhas, nomeadamente da Boa Vista e do Fogo. O desaparecimento da embarcação apenas foi confirmado meses mais tarde, quando chegou dos Estados Unidos a informação de que não havia qualquer notícia do veleiro. A tragédia mergulhou a ilha Brava num profundo luto, deixando uma memória dolorosa que permanece viva até aos dias de hoje.

A história do Matilde foi reconstituída pelo escritor bravense Artur Vieira, na obra bilingue Matilde, Viage di distino (Matilde, Viagem do destino), publicada em 1991, com base em testemunhos e relatos sobre o acontecimento. A obra recupera a memória dos 53 homens que embarcaram rumo à América e descreve as circunstâncias que marcaram aquela viagem fatídica.

Em 1993, por ocasião do 50.º aniversário do desaparecimento do Matilde, emigrantes cabo-verdianos nos Estados Unidos mandaram erguer, em Fajã d’Água, um monumento de homenagem às vítimas desta tragédia. O memorial perpetua, por ordem alfabética, os nomes dos 53 homens desaparecidos naquela viagem.

Associada à partida do veleiro Matilde, em 23 de agosto de 1943, e à despedida dos seus passageiros e tripulantes, nasceu a Valsa Matilde, composta por Silvestre Pinheiro Faria (Brava, 1924–1993) e musicada por José Medina e Vasconcelos (Brava, 1900–1953), uma das maoires  figuras da composição musical bravense. A composição tornou-se uma das mais marcantes expressões culturais associadas à memória desta tragédia. (Fonte: Expresso das Ilhas, “Falucho Matilde: Valsa de despedida”, 5 de abril de 2018).

Nota: A imagem apresentada é meramente ilustrativa e retrata uma embarcação à vela semelhante às utilizadas em Cabo Verde durante a primeira metade do século XX.

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Tags: Marítimo

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